Se você é dos que nunca entendeu porque tanta gente idolatra o cinema europeu, esta é uma grande oportunidade para descobrir os motivos que fazem dele um cinema mais realista, construído nas sutilezas e nos silêncios das suas personagens, sempre muito mais convincentes e mais próximos das pessoas comuns.
Eu nunca cheguei perto de "
Crepúsculo" (filme ou livro), mas ao término da sessão, acreditei que o terror adolescente de
Stephenie Meyer deve ser algo bem próximo deste excelente filme sueco. Próximo, do ponto de vista da trama central, e não do roteiro/produção/execução. E é comparando filmes como este, que podemos perceber o abismo que existe entre o cinema europeu e o cinema comercial executado em
Hollywood. Não que eu não goste do cinema de Hollywood, não é isso. Mas muitas vezes eles acabam camuflando pequenas obras-primas como esta, que passará despercebida por boa parte do grande público.
"
Deixa Ela Entrar" é baseado em um livro escrito por
John Ajvide Lindqvist (roteirista do filme) e gira em torno de
Oskar, um adolescente solitário e rejeitado na escola, fascinado por armas, crimes e vingança. Ao conhecer
Eli, uma estranha garota que se muda para o apartamento ao lado, descobre nela os sentimentos que lhe faltam, e tenta investir nesta estranha relação. Oskar (e o espectador) demora para entender o que Eli tem de diferente, mesmo percebendo hábitos peculiares, como o fato de não vê-la durante o dia, sua janela ser completamente vedada, ela andar descalça no gelo e nunca sentir muito frio.
Mas se a trama é simples e muito explorada no cinema, espere para ver o que acontece quando um diretor sueco (e talentoso) assume a direção.
Tomas Alfredson não é conhecido por aqui, mas aos 44 anos já coleciona uma dezena de filmes em seu currículo como diretor, escritor e até como ator.

Não espere encontrar dentes de alho, espelhos ou balas de prata. "Deixa Ela Entrar" explora as sutilezas das ralações humanas, os sentimentos e as descobertas. Mas ao mesmo tempo, é neste ponto que o filme comete seu único deslize, na minha opinião. Até a metade do filme, quase não vemos sangue, nem a violência escancarada. Na primeira cena "violenta", por exemplo, repare como o assassino fica o tempo todo em frente ao corpo do garoto que está prestes a perder a vida. Mal vemos o que está acontecendo. A ação é compreendida por inteiro, sem que algumas pessoas precisem tapar os olhos. E eu estava achando perfeita a ideia de um filme de vampiros não abusar destes elementos. Mas da metade para o final o diretor perde um pouco a mão, e a tentação do sangue derramado fala mais alto. Isso não diminui a beleza do filme, mas para mim é o suficiente para não se tornar uma verdadeira obra-prima.
Deixando isso de lado, perceba como Alfredson consegue criar uma atmosfera rica em texturas (visuais e sensitivas), tornando esta "fantasia" muito mais próxima da realidade. O frio do inverno sueco se contrapõe ao calor crescente que vai se estabelecendo na relação de Oskar com Eli, até acharmos absolutamente cabível Oskar voltar para casa vestindo shorts, em uma das (tantas) cenas do filme onde ele sofre com as provocações e agressões de seus colegas do colégio. Aliás, este é outro ponto crucial na narrativa. Oskar encontra em Eli a força, a coragem e a frieza que lhe faltam para encarar os colegas, e se vingar como sempre ensaiou. Ao mesmo tempo em que Eli encontra em Oskar alguém que realmente se importe com ela, aceita-a como ela é, e pode protegê-la de suas próprias fraquezas.

É uma pena que um filme como este passe batido de grande parte do público. Mas enfim, esta não será a primeira e nem a última vez que isso acontece. Só espero que o remake (que infelizmente está sendo gravado) sirva para irem atrás do original.
Kåre Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar, Henrik Dahl, Karin Bergquist, Peter Carlberg, Ika Nord.